Como o prometido é devido, aqui estou eu para comentar o espectáculo. Inicialmente fiquei com a sensação que poderia ser mais pesado do que realmente foi. Sem dúvida que o tema é desconfortável, mais do que outra coisa qualquer. Mas o desconfortável tem vários níveis e depende de quem o experimenta e eu nunca tive grande inclinação para sentir desconforto com temas fortes. As primeiras cenas levam o espectador a entrar num mundo de abusos e agressões e a iniciar a escalada na tal gradação de desconforto. O texto é fluido e funcional, um pouco duro e directo, o que aparentemente é normal em Mikael de Oliveira. Pelo menos fiquei curioso sobre o trabalho dele. A encenação, do próprio John Romão, é simples mas recortada com pormenores de extrema inteligência. Entre muitas outras coisas gostei do banho e gostei do porco. Não me perguntem... vão ver. Mas, para além do texto e da encenação, estava curioso para ver se a relação entre os dois actores tinha sido conseguida ou não. E durante o espectáculo o que transpareceu foi uma enorme empatia entre o John Romão e o pequeno actor Martim Barbeiro, ao ponto de o primeiro descer a máscara do segundo e humanizá-lo com as demonstrações de preocupação em relação a este, ao invés do que seguia no texto entre personagens, preocupação com as suas posições em palco, tempos e mais importante com a segurança e bem estar de Martim. O humor de John, a dançar entre o negro e o british, estava lá presente e martelava sempre que necessário. O de Martim, natural e infantil, também e era delicioso.
Numa escala de 10... não, nada de escalas neste blog. Não acham pretensioso isso das escalas? Ver uma nota alta atribuída a algo que no dia anterior tínhamos visto e detestado e uma nota baixa à coisa que nos parecia ser a revelação dos segredos do universo? Apenas digo que vale a pena ver. Não é perda de tempo, nem de dinheiro, nem de neurónios.
PS: Pergunta aos actores - Não deslocaram nenhum bracinho ao pequeno Martim, pois não? Livra. Aquilo parece a dada altura que o rapaz está numa centrifugadora a 100 à hora. O John devia vender bilhetes na Feira Popular e apresentar-se como montanha russa personalizada. Impossível ver aquilo como actos de violência quando recortados por gritos de alegria e gozo do Martim. Cool.
Espaço de partilha, ponto de partida e ponto de encontro, de ideias e de emoções, de tudo e de nada. Espaço de reflexão, de crítica e de opinião. Sobre a arte e sobre a ARTE. Sobre o artista e o artesão. Sobre o intelectual e o analfabeto. Sobre os escolásticos e os da escola da vida. Feel free to join in. Eu não mordo. Bem... pelo menos nem sempre.
Mostrar mensagens com a etiqueta john romão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta john romão. Mostrar todas as mensagens
domingo, 19 de abril de 2009
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Hipólito
No dia 18 de Abril é provável que me encontrem pelo Teatro Helena Sá e Costa no Porto. O que me levará lá é uma das duas sessões da peça "Hipólito - Monólogo masculino sobre a perplexidade" do Colectivo 84 com textos originais de Mickael de Oliveira (vencedor do Prémio Dramaturgia Maria Matos 2006) para dois actores, homem e criança, John Romão e Martim Barbeiro, respectivamente. Prometo que depois comento o espectáculo. Para já neste início de blog tenho sido algo preguiçoso com a critica, mas está para breve."(...) trata, como o nome indica, do mito de Fedra que envolve a sua vítima - Hipólito. Nas versões clássicas, a vitimização de Hipólito efectua-se através de uma lógica falocêntrica e falocrática, sendo Fedra o motivo feminino trágico, o elemento anómalo social e familiar. Neste Hipólito, Fedra, a imagem feminina que antes era ímpia, frágil e doente, surge aqui como uma mulher predadora, psiquicamente pervertida e sobretudo pedófila, numa lógica de igualdade dos géneros, «Não percebo porque é que ninguém fala das mães pedófilas / Será que elas não existem / Elas são iguais aos homens mesmo no mórbido / Elas também podem matar / Podem atirar ao lixo / sem grande transtorno / as suas próprias progenituras ou então afogá-las / com dois dias de vida e congelá-las / É por isso que hoje sou feminista / Porque acredito na igualdade dos géneros / tanto na bondade como na crueldade». O discurso de Fedra não se inscreve no formato das clivagens entre os sexos, esta Fedra é uma madrasta contemporânea, com “vontade de amar o seu filho com as mãos” e de satisfazer o seu desejo nele. Assim, em vez de ouvirmos o relato de Fedra, o autor propõe que se oiça o relato da vítima que passará, ao longo dos anos de abusos sexuais, a ser igualmente o predador, para castigar “a trindade” da casa, Teseu, Fedra, e ele próprio. No monólogo fala-se de um Hipólito castigado durante a infância, entre testemunhos da brutalidade de que foi vítima, do amor infantil para com a sua madrasta e da confissão de um filho de pai ausente. O falso monólogo será também uma homenagem ou uma recordação aos casos de pedofilia e de incestos que temos vindo a assistir nestes últimos anos, alimentando-se de um trabalho de patchwork de alguns depoimentos verídicos de vítimas."
Subscrever:
Mensagens (Atom)